Quando a Polícia não abandona e o Estado falha
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Embora a dimensão do fenómeno não se compare à tragédia da Madeira em 20 de fevereiro de 2010, existe um paralelismo claro: a postura, a entrega e o sentido de missão demonstrados pelos profissionais da Polícia. Em ambos os contextos, os polícias provaram que o compromisso com a população está acima de ordens formais ou falhas de coordenação. Em cenários de comunicações limitadas e ausência de orientações claras, foram os próprios agentes que, por iniciativa própria, asseguraram acessos e apoiaram populações isoladas.
Durante a tempestade Kristin, isto ficou evidente nos comandos de Leiria, Coimbra e Santarém. Muitos polícias deslocaram-se voluntariamente para zonas críticas, colaborando com bombeiros e serviços municipais. Atuaram em condições adversas com coragem e discernimento — exatamente o mesmo espírito que marcou a resposta na Madeira, quando a urgência exigiu decisões rápidas, muitas vezes antes de qualquer despacho superior.
A conclusão é clara e incómoda para quem governa: não é a força da tempestade que define a eficácia do Estado, mas a dedicação de quem está na linha da frente. A decisão autónoma e a prontidão continuam a ser marcas centrais da Polícia, pilar da segurança interna. Ficou evidente que o que falha, muitas vezes, não é o profissionalismo dos operacionais, mas a resposta política e o cumprimento das responsabilidades do Estado.
Perante esta realidade, urge terminar com os impasses do Governo em relação às polícias, em particular à ASPP. Em julho de 2024, foi assinado um acordo para valorizar carreiras e corrigir injustiças; contudo, seguiram-se negociações arrastadas e incumprimentos. Por esta falta de seriedade, em novembro de 2025, a ASPP decidiu abandonar as negociações. Não por falta de vontade de dialogar, mas porque não se negoceia com quem não cumpre a palavra dada.
Os polícias não pedem favores: exigem o direito à valorização das suas carreiras. O Governo tem o dever legal, político e moral de honrar o acordo de 2024. A tempestade Kristin demonstrou, mais uma vez, que estes profissionais nunca abandonam a população, mesmo quando o reconhecimento é escasso. Em contraste, sentem que o Estado os abandona sistematicamente, um desequilíbrio inaceitável numa democracia séria.
Apesar de lamentar o incumprimento, a ASPP mantém uma posição responsável: estará disponível para regressar à mesa das negociações assim que o Governo decida cumprir o prometido. O diálogo só faz sentido quando sustentado por confiança e respeito institucional. Em suma, os eventos de 2010 e de agora provam que é a bravura dos polícias que protege o país. Cabe agora ao Estado estar à altura desses profissionais e honrar os compromissos assumidos.
Adelino Camacho
Dirigente/Coordenador
Aspp Madeira