Formar Polícias Para a Realidade, não para o Espetáculo

Formar Polícias Para a Realidade, não para o Espetáculo

Não era minha intenção começar o ano de 2026 a falar de problemas; pretendia escrever sobre perspetivas e desafios positivos para o futuro da instituição. Contudo, a realidade impôs-se e não tive alternativa senão abordar um tema que voltou a dominar o debate público.

Confesso que tive dúvidas sobre o que escrever. Poderia focar-me num caso de violência doméstica, real e grave, em que um bombeiro foi filmado a agredir a esposa na presença do filho e no qual, apesar da gravidade dos factos, o processo acabou suspenso pelo perdão da vítima. Ou poderia falar dos episódios de boxe ocorridos na Escola Prática de Polícia (EPP), amplificados à exaustão pelas redes sociais e pela comunicação social. Optei pelos últimos porque, num país onde crimes verdadeiramente graves aguardam frequentemente por respostas firmes, preferiu-se apontar o dedo e quase condenar jovens formandos, transformando um episódio interno num espetáculo mediático.

As imagens que circularam, mostrando combates de boxe entre formandos do curso de Agentes na EPP, dominaram o debate durante dias. Perante esta exposição, considero essencial apelar à ponderação, ao equilíbrio e ao bom senso da Direção da EPP e da Direção Nacional na condução dos respetivos processos disciplinares.

Importa esclarecer o que muitos comentadores ignoram: a EPP rege-se por um regulamento interno próprio, exigente e muito particular. Existem linhas vermelhas claras, conhecidas por todos, e, quando são ultrapassadas, a instituição sabe — e deve — agir com firmeza.

Ainda assim, neste caso concreto, o meu maior repúdio dirige-se a quem filmou e divulgou o vídeo. Ou quem o fez não pertence verdadeiramente ao grupo, ou estamos perante uma conflitualidade interna entre turmas, típica de quem prefere a exposição pública à resolução interna dos problemas. Em qualquer dos casos, trata-se de um comportamento reprovável.

Sejamos claros: o que está em causa é uma contenda fora do horário letivo, em ambiente de caserna. Não falamos de apostas, consumo de álcool, bullying, humilhações ou violência gratuita. Falamos de dois opositores, ambos com luvas, num combate que considero justo, sem relatos de brutalidade excessiva nem consequências graves. Muito mais grave seria se estivéssemos perante práticas degradantes ou violência dirigida a formandos mais frágeis. Não é o caso.

Defendo, sem rodeios, polícias preparados para a realidade da rua e não para o espetáculo das redes sociais. Prefiro polícias firmes, mas com discernimento e controlo, a "polícias-cabide" que desfilam fardas sem autoridade. Prefiro agentes capazes de imobilizar agressores a continuar a assistir ao triste cenário de polícias agredidos em serviço. Convém recordar que estas agressões estão a aumentar e que muitos profissionais ficam incapacitados, afastados da atividade, sem direito a indemnizações justas ou ao apoio adequado.

Quando entrei na PSP, não havia telemóveis. Após as aulas, treinávamos, estudávamos ou convivíamos. Ocasionalmente, fazíamos combates entre colegas, enquadrados no treino de defesa pessoal ou judo, sempre sem excessos. Ninguém morreu; pelo contrário, essa vivência preparou-nos para a dureza da vida policial.

É por isso que, como profissional da PSP e dirigente sindical, apelo diretamente ao Diretor da EPP: pondere bem. Falamos de jovens, alguns com apenas 18 anos, longe de casa e sob enorme pressão num curso exigente. É na formação que se moldam valores e se constrói o espírito de corpo.

Naturalmente, a situação não pode passar em claro. Deve haver uma resposta disciplinar, mas que seja pedagógica e proporcional. Uma admoestação ou um castigo educativo, como no passado, permitia aprender com o erro sem destruir carreiras antes de estas começarem.

Punir, sim. Condenar publicamente e arruinar futuros profissionais, não. A PSP precisa de polícias preparados para a realidade da rua, e essa realidade não se constrói com likes, mas com coragem, resistência e caráter.

Adelino Camacho

01.01.2026

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